Campo Grande - MS,09 de Setembro de 2010  
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A Carreira Jurídica e a Língua Portuguesa. Por Paulo Henrique Sá - Delegado de Polícia

A Carreira Jurídica e a Língua Portuguesa:
Há algum tempo tenho acompanhado os artigos postados no sítio eletrônico da Polícia Civil, tanto por delegados quanto por integrantes de outras carreiras, sempre boquiaberto com o trato muito abaixo da crítica com a língua portuguesa. Embora o conteúdo dos textos seja quase sempre interessante, nota-se que alguns autores não dão a mínima para a última flor do Lácio, ou seja, pensam que o importante é a mensagem e que essa história de escrever corretamente é de somenos importância, coisa de gente fresca, pouco importando se Camões, Fernando Pessoa e Machado de Assis estão a se revirar nas suas tumbas.
Essa prática nos é extremamente danosa, mormente em um país no qual um presidente semianalfabeto alardeia aos quatro ventos que não precisa de educação formal para chegar ao mais alto posto, causando a sensação de que o requinte e a fineza no uso do vernáculo são vícios da elite (que virou palavrão, quando é imprescindível a qualquer nação). Dessa maneira, pode-se pensar que escrever corretamente nada tenha a ver com a ascensão a um patamar intelectualmente desejável aos delegados, grassando os maus exemplos, a flatulência pseudointelectual e o pedantismo empostado e fingidamente culto que ostentam. Ficam todos encantados com palavras colhidas de algum dicionário eletrônico, sem perceber que as usam para formar frases desconexas e gramaticalmente aleijadas. Infelizmente, o que se vê, quando olhamos mais de perto, é o expurgo da norma culta, com a destruição das concordâncias e a abolição da crase, além de outros absurdos de fazer corar um colegial.
Ora, como podem esses quadrúpedes posar de juristas se não conseguem sequer pontuar e acentuar corretamente os textos que produzem? Podem me chamar do que quiserem, pois não ligo. Os imbecis tacanhos de plantão sempre me tomam por louco ou coisa pior. O que não percebem é que estão apenas atestando quão burros e presunçosos somos os delegados de polícia. Como diz Olavo de Carvalho, um dos sinais mais patentes de incultura é a propensão ou hábito de crer que a boa escrita é apenas um adorno exterior, alheio à qualidade do pensamento. Dante explicava que a gramática é a estrutura material do pensamento expresso. Se você não apreende sequer a estrutura material, como vai orientar-se nas abstrações da lógica, nas sutilezas psicológicas da retórica?
Sabem o que é pior? Ninguém está nem aí. Parece que a linguagem escrita foi substituída pela linguagem coloquial, ou seja, basta que se faça entender. Dessa maneira, não há mais diferença entre o Lula, o Kleber “Bambam” (Big Brother) e nós, que aspiramos à carreira jurídica (aspirar é verbo transitivo direto ou indireto conforme signifique inspirar ou almejar e a ausência do acento grave muda completamente o sentido da frase). É o chamado nivelamento por baixo. Coisa de comuna. Será que não percebem a importância da língua como expressão cultural? Será que vão continuar assassinando a regência preposicional dessa maneira? Até quando?
Que me desculpem os meus amigos, eu sei que não sou nenhum Pasquale e que no meu texto também deve haver algum erro, mas o relaxo total não é admissível. Não há justificativa para a preguiça e nem para a total falta de traquejo com a língua. Toda a cultura do mundo é vã se externada dessa maneira tosca. Pelo menos tentemos nos expressar como verdadeiros merecedores de pertencer à carreira jurídica. Caso contrário, estaremos eternamente atrelados àquele estereótipo do delegado barbudo, camisa aberta, de coletinho, com óculos Ray-Ban e um palito de fósforo na boca. Assim, independentemente dos currículos pessoais, nunca seremos respeitados.
Paulo Henrique Sá - Delegado de Polícia, graduado pela U.F.S.C. e pós-graduado em Direito Penal e Processo Penal pela U.F.U. – lotado em Nova Alvorada do Sul-MS. 

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